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Jun 17

A verdade sobre o que aconteceu em Pedrógão é insuportável. É esse o motivo pelo qual os agentes políticos e os seus porta-vozes evitam, a todo o custo, falar em responsabilidades. Foi conhecendo já a verdade insuportável que o Presidente da República se apressou a dizer que “fez-se o máximo que se podia ter feito”. Mas não fez. E a própria declaração apressada do Presidente foi o primeiro sinal de que uma gravíssima negligência tinha ocorrido e que a estratégia de protecção mútua dos responsáveis políticos tinha começado.

Enquanto os bombeiros apagam o fogo e as televisões facturam, por detrás da cortina há reuniões permanentes de gabinetes, encontros assessorados por empresas especializadas na gestão da comunicação em ocasiões de crise, há snipers anónimos espalhados pelas redes sociais, cooptados nas juventudes ou entre dirigentes partidários arruaceiros contumazes, mais propensos à cacetada e ao vernáculo de taberna, cuja missão é insultar quem questione a palavra de ordem: é preciso proteger a imagem do governo. É preciso evitar que se fale em responsáveis. Daqui a uma semana já ninguém se lembra disto.

 

Agora é o tempo do bom e velho espírito Jonet. É tempo dos peditórios, das contas solidárias abertas na CGD para cobrir uma despesa que cabe ao Estado, das chamadas telefónicas de valor acrescentado, dos pacotes de leite e dos sacos de fruta entregues nos quartéis, como se aos quartéis não pertencesse o dever de os ter aprovisionados para ocasiões como esta e tivessem que sujeitar-se, de cada vez que há uma tragédia, ao ritual miserável da esmola, da velha caridade salazarenta, da procissão redentora dos víveres e das mantas. Agora é o tempo da consternação fingida e das lágrimas de crocodilo, da “solidariedade” que até aqui não houve e cuja falta está na origem da catástrofe que todos os anos se anuncia e que desta vez aconteceu. É tempo do ritual do luto solene e oficial, das condolências tão protocolares quanto falsas, das fotografias trabalhadas para a primeira página, dos abraços mil vezes ensaiados, da rosa negra na foto de perfil, colocada à pressa depois da festarola de São João onde se fez campanha eleitoral enquanto o país ardia.

Mas a verdade é insuportável.

Os mortos e os feridos são uma estatística. São danos colaterais que ocupam uma estreita coluna na folha de cálculo onde se contabilizam os lucros do desordenamento do território. Enquanto uns choram, outros vendem lenços. Que nem por um minuto se duvide disto: a preocupação principal desta gente são as próximas eleições autárquicas e o eventual desgaste político resultante da tragédia. Antes do próximo Inverno haverá sobreviventes de Pedrógão Grande a receber notificações das Finanças para pagar um imposto qualquer sobre algo que

publicado por José Manuel Faria às 21:21

11 comentários:
Só os inimputáveis é que não assumem responsabilidades! E não serão apenas dos políticos. Quem deveria estar no terreno e ser competente e eficiente?! Quem não cumpriu de acordo com as suas responsabilidades?
É trágico de mais para ser passado em branco num país que se quer civilizado e europeu!!!
Anónimo a 20 de Junho de 2017 às 10:25

É triste mas é a pura realidade de Portugal onde muitos se calam por terem medo de falar. Eu pergunto, que democracia é esta? Que povo é este? que por medo deixa de defender os seus direitos?
Carlos a 20 de Junho de 2017 às 10:47

só tem a consciência limpa governante que não tenha consciência
sandra a 20 de Junho de 2017 às 12:31

Não será a sua própria campanha eleitoral que o está a cegar nessa busca por responsáveis? Parece-me que é esse o seu problema...
O fogo ainda está a decorrer, apesar de pessoas como você acharem que não. Que interessa é ir para o terreno prender tudo e todos que a situação já terminou, pois as televisões fazem 500 horas diárias onde só mostram terrenos queimados, casas e carros destruídos e pessoas em agonia.
Por outro lado, a maioria dos protestantes que procuram pelo "governo culpado" ignoram que a primeira linha chama-se Cãmara Municipal e que NENHUMA aplica o PDM a nível das estruturas florestais. Fazem favores aos drs e engenheiros que querem construir uma casa com piscina, court de tenis e muitas árvores em volta, alterando o PDM para isso acontecer, esquecendo-se que essas zonas vão ficar isoladas com mato ao abandono e que num incêndio serão milhares de casas espalhadas pelas encostas a precisar de carros de bombeiros para defender cada uma.
Antes de procurar culpados em campanha eleitoral como a que está aqui a fazer, primeiro é preciso extinguir as 38 frentes de fogo que ainda estão a ocorrer naquela região. Não é por ignorar essa parte que vai poder fazer campanha eleitoral com as cabeças para os jornalistas o irem entrevistar com algum fogo em fundo na imagem.
Manuel Costa a 20 de Junho de 2017 às 11:42

E não nos podemos esquecer que cá em Vizela tínhamos (bem ou mal) uma "trindade" a funcionar, Bombeiros, Proteção Civil e Câmara Municipal, que há muito tempo que está em standby devido ao imbróglio causado pela expulsão do anterior comandante, Paulo Oliveira. Durante este período muita coisa precisou de estratégia (planeamento, limpeza, etc.) e nada foi feito. Desde sábado que já temos comandante e esperemos que não se perca em inaugurações de ruelas e meta as mãos ao serviço. Esperemos também que a sua relação com o presidente interino seja normal de forma a que os Bombeiros de Vizela, aqueles que são os verdadeiros heróis, possam tem um verão sossegado. Vamos todos torcer para não termos de nos lamentar de toda esta confusão. É melhor alertar agora porque para apontar erros já há muitos que o fazem.
Anónimo a 20 de Junho de 2017 às 15:37

Em matéria de ordenamento florestal, os municípios, infelizmente, não têm competência para tal.
Mas têm outras competências e obrigações que fingem não ter! Por exemplo cumprirem com a proibição temporária de não edificação nos terrenos ardidos.
Anónimo a 20 de Junho de 2017 às 16:37

Mais um Costa. És tamanho. Vai-te catar.
meidininqualquerlado a 20 de Junho de 2017 às 17:04

Portugal está há muitos anos nas mãos de indivíduos muito pouco sérios que deveriam ser severamente castigados porque de forma indirecta cometem graves crimes. Da Direita à Esquerda, da Banca ás Energias e Obras públicas, entre tantos outros, verifica-se uma tremenda falta de gente séria! Unicamente interessados em governarem o seu bolso! É aflitivo! É também um país propositadamente atrasado, como dizem alguns, o que permite o reinar constante da respectiva pandilha! Enfim.
José Seco a 20 de Junho de 2017 às 12:48

Quer um ou mais responsável?

Basta acusar todos os que ao longo dos anos permitiram a plantação massiva de eucaliptos.

Recentemente Assunção Cristas e Passos Coelho.
Anónimo a 20 de Junho de 2017 às 13:08

Como é que aldeias ficam cercadas pelo fogo? Como é que um morador diz: "Eram foguetes a cair no chão. Em meia hora estava tudo incendiado."? (http://rr.sapo.pt/video/141126/eram_foguetes_a_cair_no_chao_em_meia_hora_estava_tudo_incendiado)

Como é que outra moradora diz: "Foi uma coisa de repente que passou e parecia o diabo"? (http://rr.sapo.pt/video/141348/pedrogao_grande_foi_uma_coisa_de_repente_que_passou_e_que_parecia_o_diabo)

A resposta pode encontrar-se aqui: http://www.wilddata.org.nz/fwicalc/help/fwicalc_web/html/fwic9f7b.htm

O Forest Fire Danger Index (FFDI) talvez lhe dê uma ideia dos verdadeiros responsáveis: temperatura elevada, baixa humidade relativa, algumas semanas sem pluviosidade, evapo-transpiração das plantas elevada e vento forte. Por aquilo que pude avaliar ontem no terreno, estimo que a velocidade de propagação da frente de chama terá atingido, nalguns casos, valores a rondar 10 km/h.
P. Elvimonte a 20 de Junho de 2017 às 15:35

Os responsáveis são:
Governo;
Câmaras Municipais;
Infraestruturas de Portugal;
e outras idênticas,
Dêem uma vista de olhos ao Decreto-Lei nº 17/2009.
Anónimo a 20 de Junho de 2017 às 21:10

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