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Jan 11

 

Aderi ao Bloco desde que o Movimento foi dado a conhecer em Braga, ajudando, num colectivo escasso mas empenhado, a construir a organização distrital. Ao longo deste percurso, fui eleito para cargos de direcção a nível local e nacional, co-representei o partido na autarquia e no debate mediático, procurando sempre ser porta-voz das decisões maioritárias, independentemente de maiores ou menores discordâncias, que considero inerentes à militância partidária.

E é porque publicamente sou identificado como militante do Bloco, que penso ser minha obrigação no mesmo espaço deixar registada e justificada a minha demissão, que comuniquei a quem de direito em véspera de eleições, não tendo sido, portanto, condicionada pelos sortilégios do voto, que infelizmente foram os que conhecemos.

Não aderi ao Bloco de ânimo leve, antes pelo contrário, procurei perceber com clareza qual a estratégia política desta nova força, que em bom momento rompeu paradigmas na esquerda portuguesa. A proposta era a de “Começar de Novo”, e esse texto consubstanciava um projecto de programa suficientemente motivador para vencer as resistências de quem vinha de outra militância frustrada.

Três aspectos fundamentais contribuíram para a minha decisão de adesão. Em primeiro lugar, a afirmação de que o Bloco não pretendia ser mais um partido, antes se assumia como Movimento, que apenas por imperativos legais assumia o estatuto partidário. Condição motivadora foi também a adopção de uma direcção colegial, factor absolutamente distintivo no panorama nacional e internacional. A afirmação, na primeira Convenção, de que o Bloco assumia a “perspectiva do socialismo como expressão da luta emancipatória da Humanidade contra a exploração e opressão”, não sendo embora enquadrável nos clássicos “ismos” da esquerda, era uma garantia de que não estava a gizar-se mais uma força política de cariz reformista e promotora do “bom” capitalismo.

O Bloco prometia, assim, “correr por fora”, recusando os parlamentarismos estéreis e os jogos centrados no crescimento próprio, não sacrificando causas à aritmética eleitoral.

Mas a verdade é que, com o correr dos dias, os sucessos eleitorais foram acompanhados de uma crescente institucionalização do partido, hoje absolutamente centrado nos parlamentos e refém da lógica do líder incontestado, própria de tradições que se pretendiam reequacionar.

Mas se estes aspectos podem parecer menores, e apenas de ordem organizativa, no plano político o Bloco teve dois momentos em que publicamente manifestei a minha total discordância, e que procurei contrariar, com muitos companheiros apoiantes das moções C das duas últimas convenções, mas também de outras correntes internas, incluindo a maioritária, como foi com centenas de bloquistas na reivindicação de uma convenção extraordinária, para debate e decisão da questão presidencial.

O primeiro desses momentos foi o famigerado acordo de Lisboa, em que o BE aceitou compromissos com a direcção do PS, sob pretexto de que se tratava de uma questão local, e não replicável. Mas, nesse debate interno ficaram claras as pulsões, creio que minoritárias, de convergência com o PS, invocando o eterno mito de um remoto PS de esquerda, que poderia ser um compagnon de route nas urgentes transformações sociais do país. Se...

O apoio a Manuel Alegre não foi mais do que o segundo andamento dessa cacofonia, que define uma tendência, do meu ponto de vista absolutamente oposta aos princípios fundadores. Participar em comícios com ministros de Sócrates, ouvindo-os vociferar hipocritamente pela defesa do estado social e dos serviços públicos, significa um efectivo abdicar pelo Bloco dos seus princípios ético-políticos, e uma entrada desastrosa no possibilitismo da acção inconsequente. Confunde os militantes e o povo de esquerda, coloca o Bloco em terrenos, no mínimo, dúbios. Acresce que todos sabíamos que o apoio precipitado a Alegre significava um golpe fatal nessa candidatura, só justificável por tacticismo partidário.

Mas o Bloco tomou as decisões que entendeu democraticamente, ressalvando alguns episódios menos recomendáveis, e saberão os seus militantes e dirigentes onde os levará este caminho, que considero tortuoso. Como cidadão, tomo eu a decisão de interromper esta jornada comum, enquanto militante. Sem dramas, continuarei a minha participação política, com toda a certeza reencontrando muitas vezes os camaradas e amigos que estes anos trouxeram.

Sair do Bloco não me transforma num anti-bloquista, como nunca fui, nem serei, adversário de qualquer movimento que lute pela transformação social. Assumindo todos os defeitos e erros cometidos, inevitáveis na praxis política, o sectarismo é uma maleita de que nunca padeci e, ao contrário, sempre procurei ultrapassar, dando o primeiro passo na procura de convergências, nos diversos níveis em que a minha voz contou.

Julgo serem estas palavras suficientes e, não pretendendo entrar nas comuns catarses acusatórias, veremos então onde nos levam os passos seguintes.

 

Até breve.

 

João Delgado

 

publicado por José Manuel Faria às 18:12

4 comentários:
João Delgado inicialmente apoiou Fernando Nobre, para que conste.....
a.pacheco a 29 de Janeiro de 2011 às 19:24

O que só reforça o seu carácter de pessoa esclarecida e coerente... demonstrado através desta sua última decisão de se retirar do BE.
rm a 30 de Janeiro de 2011 às 12:31

A. Pacheco, muito antes de apoiar Nobre, e de lhe retirar o seu apoio quando este declarou que numa eventual 2ª volta, em que eventualmente não participasse, não apelaria ao voto contra Cavaco, João Delgado com outras centenas de militantes do BE tentou discutir presidenciais dentro do Bloco...para que conste.
isabel faria a 30 de Janeiro de 2011 às 18:07

Eu acredito na revelação da Isabel. O BE tem, ou melhor tinha, muita gente de grande valor. Mas parece-me, pelas razões adiantadas pelo Delgado, que muitas dessas estão cada vez mais desiludidas com o rumo do BE e vão saindo ou equacionam essa possibilidade.
rm a 30 de Janeiro de 2011 às 18:53

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