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Jun 11

 

A “esquerda grande” de que se fala por aí não está acantonada ao Bloco de Esquerda, não é teleguiada pelo BE e não se resume à soma aritmética dos votos do BE e da CDU. É, por isso, que se impõe reflectir, debater, ouvir, saber ouvir, reflectir de novo, concluir e agir.

No que a mim diz respeito, e sobretudo no que ao meu canto interessa, aplaudo o “debate aberto” do Esquerda.Net, na sequência da resolução política da Mesa Nacional do Bloco de Esquerda. Porque ele é importante justamente pelo que lá está escrito, para debater “os resultados eleitorais, a actual situação política e as perspectivas da esquerda em Portugal”.

1.Os resultados eleitorais

As legislativas de 2011 traduzem-se, relativamente ao BE, no recuo de quase 270 mil votantes, em relação às anteriores eleições, e na redução para metade do seu grupo parlamentar. Pelo seu lado, o PCP manteve a performance eleitoral.

Ambos os partidos tinham propostas fortes, como concluiu a MN do BE, mas “não eram portadores de uma alternativa de governo vista como viável a curto prazo”. De resto, “sem um terceiro pilar, um campo que reúna socialistas de esquerda, independentes, activistas e meios académicos que se situem para lá do BE e do PCP e que rejeitem as políticas da austeridade e da bancarrota, não há atalho que transforme a ideia de um ‘governo de esquerda’ numa força propulsora capaz de mobilizar a sociedade portuguesa”.

Sobre o porquê destes resultados eleitorais, nomeadamente no que se reporta directamente ao BE, penso que tenho sido suficientemente explícito (ver aqui:http://itsalwaysjalalabad.blogspot.com/2011/06/sobre-necessidade-de-uma-convencao.html).

2.A actual situação política

A situação política vivida hoje não é normal, não corresponde ao que se passou após anteriores eleições legislativas. Desta vez, há, na verdade, um novo quadro político, resultante da operação de resgate da dívida, do Memorando de Entendimento subscrito pelo PS, pelo PSD e pelo CDS com a “troika” do FMI, UE e BCE, e, por fim, pelo próprio resultado eleitoral, que permitiu ao PSD ganhar as eleições e formar uma coligação maioritária com o CDS (sem esquecer o presidente que a Direita reelegeu no início do ano). Sendo que o PS irá ser, em teoria, pelo menos, até 2013, encostado às cordas, tal e qual como um pugilista que faz uma combinação prévia com o adversário e o árbitro antes do combate.

O novo quadro político será completamente visível e distinto já a partir da próxima semana, quando se deixar de debater e opinar sobre as medidas da “troika” para se passar a debater e opinar sobre as medidas tomadas pelo Governo e pelo próprio programa que irá sufragar na Assembleia da República. O novo quadro político será indisfarçavelmente sentido no bolso de todos os portugueses, o mais tardar, a partir de Setembro, inclusive. Será tudo muito rápido.

Às propostas liberais de revisão das leis laborais, às restrições de acesso ao Serviço Nacional de Saúde, à subida dos impostos, ao aumento dos preços dos bens essenciais e à redução da contribuição patronal da Segurança Social – tudo o que de mais relevante vai acontecer até Setembro – será contraposta a contestação na rua do movimento sindical. E será particularmente relevante verificar a atitude de movimentos de jovens e de precários, unidos ou não como em 12 de Março. Pode estar aqui uma das chaves da equação.

3.Perspectivas da esquerda em Portugal

Este ponto é extremamente difícil, desde logo porque a situação presente é muito desfavorável. Ainda assim, é possível e desejável, num prazo muito curto (até Setembro…), procurar perceber:

i.De que é que falamos quando falamos de esquerda em Portugal;

ii.Quais são as primeiras linhas de intervenção e de acção da inevitável recomposição de forças em curso.

Quanto ao BE, e ao papel que o BE pode e deve ter na tal “esquerda grande”, muitas outras questões paralelas se levantam. Sem preocupação de as priorizar, aqui se elencam algumas delas:

a)A diferença de opiniões deverá ser reconhecida e estimulada como enriquecedora do debate e a divergência não pode ser pretexto permanente para ridicularização ou humilhação: o adversário político está lá fora.

b)Os nomes são o menos importante, e não creio que haja qualquer conflito geracional no BE, apesar de acreditar que a renovação da base dirigente é prioritária.

c)O BE não é esteio de outros partidos; o BE é Bloco se funcionar unido, num bloco que nunca pode ser garantido à custa do silenciamento de vozes dissonantes; nem graças à repartição milimétrica de lugares e pequenos poderes entre associações fundadoras que nem sequer são tendências.

d)Os diálogos à esquerda anunciados para Setembro poderão ser determinantes, desde que não fiquem confinados ao BE ou às suas franjas contíguas – é vital alargá-los a outros prismas da esquerda. Até porque é dessa massa abrangente que é constituída a energia transformadora do BE.

e)Entender que os cidadãos têm problemas concretos e que, aparentemente, têm necessidade de quem amplie a relevância das suas preocupações e os acompanhe na descoberta de um caminho que perspective um sentido de vida melhor, numa conjuntura política e ideológica totalmente distinta da vivida nos anos de 1970 e 1980.

f)Como resultado das alíneas anteriores, é muito importante definir, esclarecer claramente e de uma vez por todas, se o BE quer ser um partido de poder ou de contrapoder, com todas as consequências inerentes à decisão. Há sinais claros nos dois sentidos, e isso confunde qualquer um.

Voltarei ao debate público, espero, lá para Setembro.

 

25 de Junho de 2011.

publicado por José Manuel Faria às 10:18

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