
A um ano do acto eleitoral as presidenciais já mexem, e por consequência os partidos englobam-nas em suas discussões internas e externas, à excepção do PCP, onde impera o ortodoxo centralismo interno. Este momento eleitoral em tudo é diferente dos demais: Um eleitor com o mínimo de 35 anos – uma tontaria constitucional, a idade maior é aos 18-, operário, analfabeto, engenheiro, reformado ou doutor por exemplo, depois de recolher 7 500 assinaturas, torna-se candidato presidencial, quer isto dizer, que não são os partidos políticos ou qualquer outro tipo de organização que impõe qualquer regra/norma ao candidato, esta é portanto, a eleição mais aberta e livre que acontece no Portugal de Abril.
A Presidência da República é o órgão máximo do Estado, imagine-se os poderes do mesmo.
Neste momento politico/social muito particular em que vive o País: as análises, conjecturas, perspectivas são extremamente imprevisíveis o que obriga a extremas cautelas quanto à apresentação de candidaturas como a putativos apoios - temos um governo minoritário do PS que no essencial continuará as mesmas políticas do anterior, provavelmente até mais difíceis para os trabalhadores, tendo em conta o aperto financeiro que fará na redução da despesa pública, veja-se o congelamento de salários.
Manuel Alegre, histórico e importante membro do PS, assume-se como o primeiro candidato a PR. Alegre sabe quão difícil será a tarefa que se avizinha, caso Cavaco Silva tente a reeleição. A área ideológica denominada de direita tem o seu “problema” resolvido, com mais ou menos apoio, mais sapo ou menos sapo, votam em Cavaco. O problema, sem aspas, é à esquerda, aqui sim, há imensas dúvidas. A principal que se coloca é: Alegre sozinho tem possibilidade de vencer, de destronar Cavaco numa primeira volta? Não. Manuel Alegre outsider em 2005 reuniu socialistas, independentes e bloquistas, curiosamente num contexto difícil, tinha três adversários à esquerda com apoios partidários e superou-os. Hoje, como há 4 anos, Alegre não faz o pleno da esquerda, mesmo tendo o apoio declarado das direcções do BE, PS ou PCP. As incoerências e ziguezagues colaram-se ao corpo: de Vitalino Canas a João Soares, há dirigentes e milhares de militantes que não o “engolem”, também no BE e ainda mais no PCP, o candidato de modo algum é consensual para um frente a frente à primeira com Cavaco.
Manuel Alegre teve uma oportunidade de ouro durante o passado mandato de se afastar do Socratismo “eucaliptal”, poderia ter abandonado o PS, e criado um movimento socialista anti/liberal ou mesmo um partido político “charneira” entre o PS e o BE, rasgando as vestes direitistas da actual direcção socialista.
Neste cenário político: Cavaco com toda a direita e centro/direita a acrescentar milhares de independentes, e uma esquerda nada unida, só há uma resposta alternativa anti/Cavaco vencedora - parecendo paradoxal, as esquerdas devem apoiar candidatos distintos, dito de outro modo, as esquerdas ganham com a proliferação de candidatos, que de um modo ou de outro, “roubem” votos a Cavaco e que o eleitor não se abstenha com o objectivo de Alegre defrontar Cavaco no segundo round, e nesse momento sim, há possibilidades de vitória.
O sistema eleitoral adoptado para a eleição Presidencial tem um “espírito” livre, quero dizer, foi criado com a intenção de numa primeira fase optarmos pelo “nosso” candidato, e caso não vença, há uma segunda volta, onde a escolha será eliminar o menos bom ou o pior.
A eleição de 2011 apresenta um Portugal político semelhante a 1986.
in Notícias de Vizela, edição nº 1302- 28 Janeiro 2010 noticiasdevizela@mail.telepac.pt