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Fev 14

publicado por José Manuel Faria às 11:41

 

"Um dos efeitos destas alegações, no entanto, é não dar espaço nem tempo para o debate verdadeiramente substantivo. E eu não gostaria que isso acontecesse. Passo então a duas respostas ao texto de Jorge Costa, o único destes autores que se deu ao trabalho de ler e comentar o programa político do LIVRE. E deve ter sido um trabalho aturado, porque nas quatro dezenas de páginas e centenas de ideias e propostas, resultado de um processo deliberativo que contou com quase duas centenas de emendas de dezenas de pessoas, Jorge Costa decidiu não encontrar nenhuma semelhança: nem na defesa do ensino público ou da saúde pública, nem na recusa da privatização da Segurança Social, nem na defesa de uma política de ordenamento do território e qualificação urbana, nem na proposta de uma Carta dos Direitos Fundamentais do Cidadão Sénior, nem na campanha por um Plano de luta contra a pobreza infantil. Não; Jorge Costa conseguiu achar discordância na proposta de constituição de um fundo soberano, cujos juros iriam para financiar projetos científicos e educacionais, a estabelecer no prazo de uma geração, ou seja, cerca de trinta anos. É o que se chama ir longe para encontrar diferenças...

O texto de Jorge Costa é porém muito importante, no sentido em que finalmente permite identificar qual é a grande diferença que vale a pena debater na esquerda portuguesa, hoje. Diz ele que “o LIVRE propõe um programa de ajustamento; para governar com o PS, a política da esquerda tem de empobrecer.” Ora isto é notável, após quarenta anos de democracia e décadas de trabalho parlamentar, em pleno século XXI: ainda há quem veja o trabalho de compromisso e encontro de um programa comum como necessariamente “um empobrecimento”. Mais extraordinário é que o faça aparentemente sem olhar para o verdadeiro empobrecimento que se dá, todos os dias, à nossa volta.

Quem assim pensa não tem apenas dificuldade em entender as necessidades da democracia que, em Portugal como em todo o mundo, se faz pela busca de soluções partilhadas para problemas concretos. Tem dificuldades em entender a própria lição histórica da esquerda. A esquerda é, e será sempre, uma aliança. É e será sempre plural. Quando nos esquecemos da simples lição de que “juntos vencemos e divididos perdemos”, a esquerda perde a sua capacidade transformadora. Em democracia, os governos transformadores da esquerda passaram sempre — da construção da social-democracia escandinava à Frente Popular em França, do New Deal de Roosevelt ao Brasil de Lula e, mais recentemente, à Islândia após a crise — pelo trabalho conjunto entre a esquerda e centro-esquerda. Esse é o debate que é necessário fazer em Portugal, e que põe em causa o imobilismo e o conservadorismo de tantos, à esquerda e à direita. E é por isso que tanta gente tenta silenciar esse debate com distorções e falsidades. Mas não silenciarão aqueles muitos que querem que esse debate se faça e se cumpra, porque o país já sofreu demasiado com este estado de coisas e catástrofes maiores ainda estão ao virar da esquina, se nos deixarmos intimidar."

 

Rui Tavares

publicado por José Manuel Faria às 08:45

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