"Pela primeira vez em Portugal, uma governante assumiu ser homossexual. Porque, diz, as leis só por si não mudam mentalidades. E este gesto, o que pode mudar?
"As pessoas vão dizer: porque é que isso é importante, o que é que tem a ver?" Eduarda Ferreira, 55 anos, está na Irlanda. Não andou a ler comentários à entrevista de Graça Fonseca, secretária de Estado da Modernização Administrativa, ao DN de ontem, a entrevista em que a governante revela ser homossexual. Nem leu a entrevista; soube da sua existência pelo Facebook. "Estou com pouca net, não consegui ler ainda toda. Fiquei surpreendida, embora ache que já era mais que tempo de acontecer. E achei extremamente importante que o primeiro governante a falar disto fosse uma mulher. Mas não é difícil imaginar as reações."
E a visibilidade de uma mulher. Como Eduarda, Isabel Fiadeiro Advirta, ex presidente da ILGA-Portugal, frisa-o. "Este passo da Graça Fonseca é um orgulho para mim que sou lésbica e não vejo praticamente nenhumas mulheres a afirmarem-se. Alguns homens, quase nenhuma mulher." Isabel, que trabalha na Câmara de Lisboa, já admirava o trabalho da ex-vereadora. "Acompanho o percurso dela há muito, foi ela que pôs o orçamento participativo a andar, por exemplo. E também fico feliz por o PS mostrar que está diferente - isto não podia ter acontecido há uns anos. Aliás, há uns 15 anos esperávamos que o primeiro partido a ter homossexuais assumidos fosse o BE. E não é. No PS, tivemos dois homens homossexuais eleitos deputados [Miguel Vale de Almeida, 2009, e Alexandre Quintanilha, 2015]. Agora uma mulherO espaço para sair do armário já existia, mas se a Graça está longe de ser a primeira pessoa em cargos governativos lésbica ou gay, foi a primeira a dizê-lo."
Nuno Pinto, presidente da ILGA, não tem dúvidas de estar perante "uma afirmação histórica". E também por se tratar de uma mulher: "A invisibilidade sobre as mulheres lésbicas é ainda maior do que nos homens. Quando se. fala em homossexualidade pensa-se em gays." Mesmo quando, aponta Isabel, é para comentar a assunção de uma mulher homossexual: "No artigo do Expresso em reação à entrevista, só falaram com homens."
É de esperar que surjam mais atitudes como a de Graça? Nuno Pinto suspira. "Em Portugal não é só na política que não temos LGBT assumidos. É em tantas áreas - no desporto, por exemplo." Concede porém que um gesto como o de Graça tem resultados paradoxais que podem demover muita gente: "Quando a pessoa se assume homossexual essa dimensão passa a dimensão por excelência pela qual somos reconhecidos. Anula de alguma forma tudo o que somos para além disso. É muito importante reconhecer que as pessoas LGBT são muito diversas e essa identidade é só um aspeto delas." Outra coisa fundamental, acrescenta, é "a Graça ter explicado muito bem na entrevista a diferença entre a dimensão privada e a identidade. Ser
lésbica faz parte da identidade dela, não é exposição da privacidade. Uma coisa é quem sou, outra com quem faço o quê."