05
Jan 19

Nada em concreto me revela tanto como é voraz a passagem do tempo como assinalar que se cumprem hoje dez anos da existência deste blogue. O DELITO DE OPINIÃO nasceu a 5 de Janeiro de 2009 com a intenção expressa de congregar no mesmo projecto algumas das melhores penas que abundavam na blogosfera generalista, então ainda em fase de expansão. Pelo menos à luz do meu critério de leitor.

A minha ideia - e não é por acaso que o blogue tem este nome, que logo me ocorreu - era reunir pessoas de proveniências diversas (até geográficas), idades diferentes, profissões variadas, com as mais díspares experiências de vida mas com dois traços em comum: o gosto pela escrita e a apetência pelo debate.

Reunida a equipa em poucas semanas, lançámos o projecto, que deixou de ser meu e se tornou numa plataforma de partilha de ideias e opiniões, aberta à participação dos leitores, atenta ao país e ao mundo. Uma plataforma administrada por todos, sem excepção, a partir de uma carta de princípios divulgada no primeiro dia e com uma regra dominante: aqui não há autores anónimos, cada um assume aquilo que escreve.

 

Os tempos mudaram, sucederam-se ciclos políticos, o País entrou em recessão e saiu dela, a blogosfera foi-se especializando em nichos temáticos, com vários dos seus protagonistas transitando para as colunas da imprensa ou instalando-se em palcos televisivos. Mas este blogue permaneceu, com a sua identidade própria, fiel às metas enunciadas no dia do lançamento. Da nossa parte esperam-se opiniões fortes, uma atmosfera plural, diversidade temática e a porta sempre aberta aos leitores. A tal ponto que alguns se tornaram também autores, passando a integrar a tribo delituosa.

Não foi apenas o mundo que mudou nos 3652 dias entretanto decorridos. Muitos de nós fomos mudando: aconteceram casamentos, separações, vieram filhos, as rotas profissionais foram-se alterando, não faltou quem experimentasse o desemprego. Estabeleceram-se novas relações, muitos projectos passaram do sonho à realidade. Houve tempo de luto, para chorar a morte de dois dos nossos - o João Carvalho e o Joaquim Coutinho Ribeiro.

O DELITO foi ficando. Já não apenas em formato digital, mas desde o ano passado também em livro que reúne textos de vários de nós. Uma antologia que só se tornou possível devido à entusiástica adesão dos nossos leitores, que a reservaram e pagaram por antecipação, numa prova de carinho que jamais esquecerei. Outra poderá vir a caminho, eventualmente com novos autores.

Há tanto por fazer, ideias não nos faltam.

 

De repente, passaram dez anos. O que fica do percurso iniciado em Janeiro de 2009? É ainda cedo para fazer um balanço, que em última análise, de resto, caberá a quem nos lê. Pela minha parte, já é gratificante ter alargado contactos e conhecimentos: hoje orgulho-me de que sejamos acima de tudo um grupo onde os laços de amizade perduram para além do ciclo efémero das estações. Como lembra o escritor espanhol Manuel Vicent, «a imortalidade é esse dom que os deuses depositam na memória dos amigos».

Frase magnífica, que nos pode servir de mote e lema.

DO

publicado por José Manuel Faria às 12:11

Janeiro 2019
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