
Carvalho da Silva: O melhor Candidato da Esquerda às presidenciais
António Costa não está refém de Guterres, está dependente da sua decisão. São coisas diferentes, parecendo idênticas. Estaria refém se, em carteira, pudesse ter outras opções com condições para ganhar Belém, o que não manifestamente não tem. Costa esperará até ao limite por uma resposta de Guterres, simplesmente por ser o único candidato à esquerda que poderá garantir uma vitória eleitoral nas presidenciais.
Os dois devem ter combinado uma data-limite. Qualquer outra hipótese é inverosímil. Se não avançar, o candidato será o ex-reitor Sampaio da Nóvoa. Um retórico com uma poética de esquerda e uma dimensão moral garantida não por obras especiais, mas por não se ter maculado no jogo político-partidário. Acontece que o país não o conhece e tenho dúvidas de que possa ficar à frente de um candidato que concorra à margem dos partidos, como Fernando Nobre fez há quatro anos (que, numa declaração ao i, diz não descurar a hipótese de voltar a avançar) ou como Marinho e Pinto ou Paulo Morais ameaçam fazer.
Posto isto, desilude-me a aparente estratégia de Guterres. O seu silêncio, aliado ao trabalho com os refugiados nas Nações Unidas, garantiu-lhe uma superioridade moral num tempo em que, no país, a moralidade se tem de procurar com uma lupa. Só que Guterres parece subordinar a sua candidatura à certeza de que não será o próximo secretário--geral das Nações Unidas. É humano que o faça, mas esperava um comportamento diferente, esperava que dissesse que não era candidato ou o seu contrário. Ser ambíguo é oferecer de si próprio uma imagem que o distorce: a de que ser Presidente da República é um mal menor, uma alternativa, uma segunda escolha.
Depois, à direita. O candidato preferido é Marcelo Rebelo de Sousa. Mas neste jogo do empurra, o também comentador político parece ter medo da sua própria sombra. Ou então é tão táctico, tão preocupado com o fazer as coisas bem, tão ansioso com o que os outros pensam, escrevem ou dizem, que mais uma vez deixará escapar o comboio.
Há pessoas que têm a tendência para o abismo. Gente que está muito bem e depois faz coisas totalmente ilógicas que deitam a sua vida a perder. E há outros, como Marcelo, que, de tão brilhantes e geniais, parecem tolhidos e não conseguem dar o passo por terem medo de falhar, de não estar à altura, de perder. É o problema de vários alunos brilhantes: são tão perfeitos que não aguentam não ser os melhores, não aguentam falhar. Um psicanalista explicará melhor do que eu. Nesse sentido, Santana Lopes é o melhor candidato da direita. Não tem medo de ir a jogo e será Presidente da República se Guterres não avançar. Não deixa de ser irónico e um ajuste de contas com o passado. E, detalhe delicioso, esteve no aniversário de Mário Soares e ficou à sua mesa. Vale o que vale. Mas, na política,